quarta-feira, 11 de abril de 2012

É preciso evolução!

Desde há muito tenho acompanhado o embate criacionistas x evolucionistas na nação mais rica do mundo. Lá, o lobby dos grupos fundamentalistas religiosos se confunde com a direita política, que tem voto de boa parte da população, especialmente entre a fatia denominada WASP (White, Anglo-Saxan and Protestant, ou branco, anglo-saxão e protestante em bom português). “Coisa de grigo”, sempre pensei, desdenhoso, maravilhado com meu Brasil, onde impera o sincretismo que, se não incentiva, ao menos não fica no caminho da boa ciência, mormente depois da redemocratização ocorrida em 1985 (antes, ou você era cristão ou um pária na escola).
Recentes fatos, dentre os quais o assustador crescimento do fundamentalismo religioso tem mudado essa cena. A exemplo dos protestantes estadunidenses, os nossos têm mostrado suas garras elegendo deputados com o único fim de defender interesses religiosos na Câmara, chegando ao cúmulo de promover cultos no plenário, jogando no lixo os artigos 5º, Inc. VI e 19, Inc I da Constituição, que asseguram o laicismo do Estado.
Mas não é, infelizmente, apenas no Legislativo que cresce o radicalismo das visões antagônicas à ciência.
Meus filhos sempre estudaram em escolas públicas que, por lei, devem ser neutras em assuntos religiosos. Infelizmente dois deles já sofreram discriminação religiosa por se declararem não cristãos, sendo que a professora de ciências de um deles chegou a criticá-lo por ele ter se declarado evolucionista!
Na última segunda-feira (09/04/12), auxiliei à professora Giselle Pezzaro, bióloga e mestre em Genética, em uma aula na qual substituía à professora Diana Freitas, bióloga e mestre em Educação, em uma aula para o 1º Semestre (eu estou no 3º), na qual se discutia o surgimento da vida e a evolução. Também presente na aula, a título de colaborador, o professor Euclides, mestre em Filosofia.
O surgimento de controvérsia na discussão não foi novidade; ele sempre surge e considero a discussão saudável. Um fato, porém, me surpreendeu. Uma professora de ciências, que provavelmente ingressou na Universidade pela Plataforma Freire a fim de se ‘reciclar’ foi categórica: “Eu até explico por cima essa bobagem pros meus alunos por que sou obrigada, mas me recuso a falar essa besteira de que viemos dos macaquinhos; por que então eles continuaram macaquinhos?”
Depois de ter recolhido o queixo do chão e o cérebro do teto (minha cabeça explodiu com a declaração), fiquei não apenas chocado, mas triste com a continuidade de sua ação, pois ela prosseguiu o resto da aula não discutindo as ideias ou mesmo apresentando argumentos pseudocientíficos, limitou-se a ficar ‘largando charadinha’, dizendo como que para si mesma frases como: “e eles acham mais fácil acreditar nesses absurdos do que em deus”.
Confesso-me, pois, ainda mais chocado com a atitude da professora do que com seu pouco conhecimento (como, por exemplo, de desconhecer que não viemos dos ‘macaquinhos’, mas que eles e nós temos um ancestral comum, ou um ‘concestral’, como chamaria Dawkins; afora o fato de ter confundido hipótese com teoria, algo aceitável para um leigo mas, em minha opinião, imperdoável para um professor de ciências).
Sua atitude de intolerância levou-me a considerar, antes de tudo, na qualidade do que ela, como educadora, está passando para seus alunos, e não apenas cientificamente falando, mas também como exemplo de respeito às opiniões alheias, de tolerância filosófico-religiosa ou do velho ensinamento (já era velho na época em que eu era criança, mas continua valendo até hoje) de que “quando um burrinho fala o outro escuta”.
Sua barafunda quase conseguiu o intento: calar as vozes contrárias à sua visão religiosa; por sorte tínhamos na aula dois professores bem preparados, não apenas em seus argumentos, mas também em manter o controle da aula. O professor Euclides teceu comentários sobre a necessidade da separação das esferas religiosa e científica, não desmerecendo esta ou aquela, mas mostrando que não devem ser confundidas, enquanto a professora Giselle argumentou que, afinal de contas, a aula era de ciências, e não de religião. O argumento convenceu a alguns dos outros alunos, que permaneciam calados, oprimidos demais para se manifestar, e as primeiras vozes pró-ciência começaram a pulular.
Por fim, após o intervalo, a aula teve que ser interrompida, pois um temporal chegava a Uruguaiana acabando com a luz da Universidade, e o 2º episódio da série Cosmos, de Carl Sagan, que tinha exibição prevista, foi transferido para o próximo encontro.
Mas o que fiquei sabendo um dia depois me deixou ainda mais estarrecido, quase arrasado: a Universidade chegou a cogitar a retirada do ensino do evolucionismo de seu currículo!
Pessoal, parem o mundo que eu quero descer! Em um curso de Ciências da Natureza, chegar sequer a cogitar a retirada de uma matéria científica com largo referencial de evidências, a base de sustentação de toda a biologia moderna (segundo Dobzhansky, nada em biologia faz sentido exceto à luz da evolução), usando-se como fator principal a controvérsia que ela suscita é demais para mim.
É como em química parar de ensinar a nomenclatura Iupac por ser complicada, ou em física não ensinar as Leis de Newton porque foram criadas por um alquimista.
Senhores educadores: Evolução é ciência, é teoria embasada em evidências (ou então seria hipótese) e não “só mais uma teoria” como alguns querem fazer crer, apresentando como contraponto escritos com 2 mil anos, com tanto embasamento biológico que chamam morcego de ave (Levítico 11:13 a 19).
Senhores professores de ciências: estudem, reciclem-se, e não esqueçam que ciência é o binômio curiosidade-ceticismo, ou então mudem de matéria para alguma mais adequada às suas crenças pessoais e deixem, assim, de prejudicar nossas crianças, que precisarão dos conhecimentos que vocês se recusam a passar mais adiante, quando enfrentarem o Enem ou o Vestibular.
Senhores fundamentalistas: Vocês já evoluíram de formas mais ‘primitivas’ de vida (não vamos entrar aqui na discussão de que nenhuma forma de vida é realmente mais ou menos primitiva, apenas diferentemente adaptada), agora só falta evoluírem em suas concepções. Não estou pedindo para que mudem sua religião ou filosofia de vida, mas que permitam que os outros tenham as deles, ainda que vão de encontro às suas. Aprender o sentido das palavras religião e filosofia pessoal e suas diferenças da palavra ciência já é um bom começo, mas o que lhes falta evoluir, realmente, é o significado da palavra respeito, que vocês tanto exigem (experimente largar uma piada de cunho religioso perto de um fundamentalista...) mas que se recusam a compreender que também deve ser aplicado às outras visões de mundo.

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